segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

As aparências e a Verdade

A sobrevivência de um povo como nação pressupõe o respeito à autoridade civil e a contribuição leal ao bem comum. Em outras palavras, faz-se mister: o cumprimento de deveres, e não apenas a exigência de direitos. O poder que vem de Deus para serviço aos irmãos e às atividades dos cidadãos, conforme a ética, estabelecem os alicerces desse edifício. Entretanto, algo mais se requer: um espírito que anime essa estrutura e a preserve da decomposição. Refiro-me a um caráter íntegro das pessoas no meio civil e também eclesial.

A atual aceleração do ritmo nas transformações sociais, políticas, econômicas e culturais gerou súbitas e profundas alterações no sistema de vida comunitária. Em consequência, há uma defasagem entre os valores de ontem e hoje, acobertando-se muitos num clima de ambiguidade. A fuga a uma definição clara de posições, por trazer problemas e dificuldades no relacionamento humano, leva a uma nefasta opção pela penumbra, o lusco-fusco. A luz cede lugar à sombra ou, o que é mais grave, às meias verdades. Estas multiplicam monstros, germes fatídicos que mutilam reputações e destroem criaturas, mais facilmente que a própria mentira ou calúnia. Matam, sem derramamento de sangue, num homicídio mais doloroso que o cometido por facínoras, no sentido habitual da expressão. Na origem dessa degenerescência há o medo, ele constitui o grande mal de nossos dias, que nos leva a alterar atitudes corretas diante da pressão da opinião pública. Sem discernir, aceita-se o que se propala, sem distinguir o falso do verdadeiro. A abdicação da autonomia pessoal possibilita a volta da tolerância, habitualmente manejada por uma minoria que a catalisa para seus fins escusos.

Aumenta a gravidade dessa situação que se patenteia pelo crescimento de um subjetivismo, substituindo a verdade objetiva. Somente esta orienta corretamente a conduta individual. Vivendo com a consciência anestesiada ficamos à mercê das correntes de pensamento em voga, assim como a biruta que gira ao sabor dos ventos. Desaparecendo o ponto fundamental, as ideias e valores ficam condicionados aos conceitos dos mais audaciosos ou inteligentes, frequentemente, a serviço de causas escusas.

Recordemos o Evangelho: "Seja o vosso 'sim', sim e o vosso 'não', não" (Mt 5,37). A objetividade dos julgamentos não pode ser relegada a um ponto inferior e os abusos e erros assumem posições incompatíveis com a autenticidade na esfera civil e também eclesiástica. O posto do árbitro se converte em arbítrio.

As consequências são funestas. A insinceridade no trato corrompe o sadio relacionamento social. Por exemplo: o natural desejo de saber as últimas notícias pode se transformar em ânsia doentia, levando os fracos de caráter a revelar episódios sem um prévio exame de sua autenticidade. Gera um clima funesto que propicia dolorosas injustiças quanto ao direito sagrado que é a boa fama. Uma vez lançada à mentira, mais grave ainda se possui parcela de veracidade, deforma-se a reputação do próximo e rouba-se um tesouro a respeitabilidade alheia. Por vezes, o dano é irreparável. Ao ladrão impõe-se uma penalidade; a esses larápios da fama alheia, mais prejudiciais que os primeiros, pouco se lhes dá como castigo de um verdadeiro crime. A opinião pública, formada sutilmente pela propagação de versões falsas, exerce, em nossos dias e através da fácil comunicação das ideias, uma real e insuportável tirania. A imagem do outro fica à mercê de indivíduos que destroem alguém enlameando-lhe a honra. Uma mente doentia tenta saciar-se na procura de escândalos, na inútil tentativa de justificar as próprias mazelas. A busca de cargos ou o empenho em fazer vencer opiniões, facções ou correntes de pensamento tecem genuínas teias que envolvem incautos. Estes se tornam, inconscientemente, fautores de males inumeráveis, incomensuráveis.

Essa situação indigna de um cristão ou simples homem de bem pode penetrar no santuário. Por isso, o Concílio Vaticano II, no documento sobre o ministério e a vida dos sacerdotes, ao tratar da eficácia de sua missão no mundo, declara: "Para cumprirem tal meta, muito contribuem as qualidades que gozam de merecida estima na convivência humana, como sejam: bondade de coração, sinceridade, coragem e constância, o culto vigilante da justiça, a delicadeza e outras que o apóstolo Paulo recomenda (Fl 4,8)". E inclui um trecho de São Policarpo (Comentário da epístola aos Filipenses, VI, 1): "E os presbíteros sejam inclinados à compaixão, misericordiosos para com todos, reconduzindo os extraviados, visitando todos os doentes, não esquecendo as viúvas, os órfãos e os pobres; mas solícitos sempre do bem junto de Deus e dos homens, abstendo-se de toda a ira, acepção de pessoas, juízos injustos, afastando para longe toda avareza,não acreditando facilmente contra alguém, não demasiados severos nos juízos, conscientes de que todos somos devedores do pecado".

A honradez e demais virtudes que caracterizam um homem de bem constituem o esteio das instituições. O apreço que se lhes deve é sinal da dignidade humana. Ao contrário, se inexistem ou são desprezadas, enfraquecidas, inúmeros danos eclodem na comunidade, inclusive religiosa.

Jamais se constrói uma pátria digna desse nome ou se preserva a Igreja de muitas deficiências sem as virtudes humanas devidamente apreciadas. Esses hábitos são essenciais à harmonia e ao respeito mútuo, bem como ao relacionamento entre pessoas probas. Sobre esse patamar e somente nele se edifica uma vida cristã autêntica. Antes de alguém ingressar pelo batismo na instituição fundada pelo Senhor, o candidato é admitido no convívio temporal, isto é, nasce.

A formação correta de um redimido pelo sangue do Redentor inclui a dignidade pessoal. Católicos ou não, tenhamos consciência de uma condição para vencer a decomposição social: ter um caráter bem formado. Ser um homem honesto, não importa as consequências. A verdade independentemente do número dos que a aceitam. Somente ela nos libertará: "A verdade vos libertará" (Jo 8,32).

Autor: Dom Eugênio Sales - Arcebispo emérito do Rio de Janeiro
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