segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

O Domingo

A fidelidade na assistência à Missa aos domingos e festas de preceito decorre do 3º Mandamento da Lei de Deus. Caracteriza a vida religiosa dos indivíduos e da paróquia na qual eles se encontram inseridos. Sem dúvida, os templos cheios nas celebrações eucarísticas do Dia do Senhor – o domingo – não significam necessariamente vigor e êxito nas atividades pastorais. Costumo perguntar, nessas oportunidades, pelos que se deixam ficar à margem da comunidade orante. O zelo pelo bem espiritual dos irmãos ausentes nos constrange a trabalhar para trazê-los ao redil. Essa atitude revela o espírito missionário, elemento essencial do cristianismo.

O índice dos que obedecem a Deus, indo à Missa, e dos refratários à ordem do Senhor é um fator indicativo de grande relevância para uma avaliação objetiva da vitalidade cristã. Não se trata de algo facultativo para o católico. A lei eclesiástica, referindo-se aos domingos e dias de preceito, fundamentada no preceito divino, é clara: "No domingo e nos outros dias festivos de preceito os fiéis têm obrigação de participar na Missa, abstenham-se ainda daqueles trabalhos e negócios que impeçam o culto a prestar a Deus, a alegria própria do dia do Senhor, ou o devido repouso do espírito e do corpo" (Código de Direito Canônico, cânon 1247). E o Catecismo da Igreja Católica (nº 2181): "Aqueles que deliberadamente faltam a essa obrigação cometem pecado grave".

Em nossos dias, pastores, abandonando sua missão de guiar o rebanho segundo o Magistério, favorecem a infiltração de erros oriundos de correntes de idéias falsas em voga. Ensinam que a assistência à Missa de preceito fica na dependência da vontade de cada um. Outro erro bastante comum é dizer que é permitido substituir a missa dominical por qualquer outro dia da semana. É o mal que penetra na grei, facilitado exatamente por aqueles que deveriam combatê-lo. São falsos guias. Quem os segue também não está isento de culpa, pois, entre eles e a doutrina da Igreja, preferem o que lhes é mais cômodo. Fecham os ouvidos à palavra do Mestre. "Entrai pela porta estreita porque larga é a porta e espaçoso o caminho que conduz à perdição" (Mt 7,13).

E quando alguém se encontra impedido, por falta de ministro ou outra grave causa, de participar do Santo Sacrifício da Missa, é aconselhada a prática de atos piedosos, condizentes com a santificação do domingo. Diz o Catecismo da Igreja Católica (nº 2.183, citando o CDC, cân. 248 par.2º): "Recomenda-se vivamente que os fiéis participem da liturgia da Palavra, se houver, na igreja paroquial ou em outro lugar sagrado (...) ou então se dediquem à oração por tempo conveniente". No entanto, convém recordar que esta celebração da Palavra ou atos assemelhados não substitui a Santa Missa e a obrigação permanece inalterada.

Diante dos fiéis que facilmente se dispensam do Santo Sacrifício nos dias de preceito, parece-me oportuno recordar o procedimento dos primeiros cristãos nessa matéria. O modo de agir desses nossos irmãos que nos precederam na prática religiosa e na obediência a esse mandamento de Deus nos orienta e fortalece. Vejamos o que nos relata a Didascália dos Apóstolos, 13: "Ordena e persuade o povo para ser (...) fiel no reunir-se, a fim de que ninguém, ausentando-se, diminua a Igreja de um membro do Corpo Místico de Cristo (...) Não desprezeis a vós mesmos nem priveis o Salvador de um seu membro, não destruais e não desperdiceis o seu corpo". A freqüência à Missa aos domingos tem suas origens na Idade Apostólica. São muitas e belas as notícias a esse respeito. Nos séculos seguintes, o Concílio de Paris, no ano 829, resume bem a observância desse compromisso por parte de cada fiel naquele período da história: "Não concorda com a autoridade divina, segundo o que está expresso na tradição dos Santos Padres e o estabelece a autoridade da Igreja, o cristão que não santifica com profunda reverência o dia do Senhor, no qual o Autor da vida ressuscitou dos mortos".

A gravidade no cumprimento desse dever tem suas raízes no Antigo Testamento. São muitas as referências na Sagrada Escritura. Tomemos, por exemplo, a resposta do Profeta Ezequiel (cap.20) aos anciãos de Israel: "Eu sou Javé vosso Deus. Mas eles revoltaram-se contra mim (...) profanaram também meus sábados. Resolvi, então, despejar sobre eles minha ira, para exterminá-los no deserto". As tábuas da Lei e as inúmeras citações sobre a responsabilidade iluminam a consciência dos cristãos na obediência a esse preceito.

Na verdade, o domingo cristão não é a continuação do sábado hebraico. Para este, o fato central é a Aliança de Deus com o Povo eleito: "Lembra-te do dia do sábado para santificá-lo" (Êxodo 20,8-10). Para nós, trata-se da celebração da Nova Aliança que adquire um significado teológico e moral próprios. Diz o Código do Direito Canônico (Cânon 1246): "O Domingo, dia em que por tradição apostólica se celebra o Mistério Pascal, deve ser guardado em toda a Igreja como o dia de festa por excelência". No entanto, em um e outro, Deus é o centro da atividade humana que reserva para si um dia. Nele recebe da criatura o louvor, proporciona um tempo para os deveres religiosos e também para o repouso. Ao observar o Dia do Senhor, o homem reconhece sua dependência do Altíssimo. O ambiente secularizado que nos cerca leva ao esquecimento dessa verdade e, em decorrência, ao desrespeito do Mandamento. O entibiamento da vida religiosa, seqüela dessa atitude, acarreta graves danos espirituais e materiais. A alma necessita de práticas de piedade que marcam o domingo. O descanso semanal, não em qualquer dia, mas no domingo, é uma exigência do corpo e do espírito, possibilita a convivência familiar. E esta é de fundamental importância em um lar, inclusive na educação dos filhos e no relacionamento do casal.

A santificação do Dia do Senhor é um fator valioso para o aperfeiçoamento espiritual dos indivíduos e bem estar da sociedade.

Autor: Cardeal Dom Eugênio Sales
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