sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Nós somos o povo de Deus - Sobre a "democracia" na Igreja

Pergunta: O conceito de "povo de Deus" é atualmente entendido como a concepção de uma autonomia perante a Igreja institucional, de acordo com o lema: "Nós somos o povo", e o que diz o povo deve acontecer. Por outro lado também existe o provérbio "A voz do povo é a voz de Deus". O que pensa desse conceito?

Joseph Ratzinger: "Quando somos teólogos e crentes, escutamos primeiro o que diz a Bíblia. Não podemos simplesmente inventar os grandes conceitos "Quem é Deus?", "O que é a Igreja?", "Graça,", etc. O dom da fé consiste precisamente em que existe algo que é dado de antemão. O conceito "povo de Deus" é bíblico. A utilização bíblica deste conceito é a norma para o modo de o utilizarmos. É primeiro e essencialmente um conceito do Antigo Testamento, quando o conceito de "povo" se encontra muito antes da era das nações e está mais relacionado com o clã, com a família.

Mas é, sobretudo, um conceito que se refere a uma relação. A exegese mais recente mostrou-o muito claramente. Israel não é o povo de Deus quando age unicamente como nação política. Torna-se o povo de Deus porque se volta para Deus. Só é o povo de Deus na relação, quando se volta para Deus, o que consiste, em Israel, na submissão à Torá. No Antigo Testamento, o conceito de "povo de Deus" inclui, em primeiro lugar, o fato de Deus escolher Israel por amor e de fazer com que o Seu amor repouse sobre ele, não pelos seus méritos próprios, e apesar de não ser um grande povo nem um povo importante, mas um dos povos mais pequenos. Por outro lado, o conceito inclui a aceitação desse amor, o que significa, concretamente, a submissão à Torá. Unicamente nessa submissão, que o põe em relação com Deus, é que Israel é o povo de Deus.

No Novo Testamento o conceito de "povo de Deus" (com, talvez, uma ou duas exceções) só se aplica a Israel, portanto ao povo da Antiga Aliança; não é um conceito que designe diretamente a Igreja.

A Igreja é entendida como a continuação de Israel, embora os cristãos não descendam de Abraão e, por isso, não pertençam a esse povo. Entram nele, assim diz o Novo Testamento, porque descendem de Cristo e, assim, se tornam também filhos de Abraão. Pertence, pois, ao povo de Deus quem pertence a Cristo; a categoria "povo de Deus", que não se aplica diretamente ao povo novo, está ligava à comunidade de Cristo, à vida como Cristo a viveu e a Cristo, ou como diz São Paulo "Tende vós os mesmos sentimentos que havia em Jesus Cristo" (Fl 2,5). Descreve "os sentimentos que foram de Cristo" do seguinte modo: foi obediente até a morte na Cruz. Só quando se usa o conceito de "povo de Deus" na sua acepção é que ele é empregado num sentido cristão. Tudo mais são construções extrabíblicas que não apreendem o essencial. A meu ver, são também produções do orgulho. Quem pode dizer, a partir de si mesmo, que somos o povo de Deus e que os outros talvez não sejam?

A propósito desta afirmação, "nós somos o povo", gostaria de acrescentar uma consideração prática. De "nós somos o povo" deduz-se também que "somos nós que determinamos". Se, por exemplo, hoje, na Alemanha, todos os membros de determinada associação se juntassem e dissessem: "Nós somos o povo e, por isso, decidimos que agora as coisas são assim", as pessoas apenas ririam. Cada povo tem os seus órgãos institucionais, todos sabem que não é o conselho municipal que vota as leis federais, mas sim o Bundestag (Parlamento Federal); um órgão, portanto, que realmente representa o conjunto da população. E, assim, também não é qualquer um o "nós" exaustivo da Igreja que depois poderia decidir, mas só todos juntos é que somos esse "nós", assim como cada grupo individual, na medida em que vive no todo. Já do ponto de vista da concepção democrática do povo, seria absurdo que grupos quisessem decidir por si só sobre o todo. Um conselho paroquial e um fórum diocesano deveriam tratar dos seus próprios assuntos. Mas não podem querer decidir os assuntos de toda a Igreja.

Na Igreja acrescenta-se ainda, além do que está estabelecido no direito do Estado (e que também tem importância na Igreja), o fato de ela não viver apenas em sincroniza, mas em diacronia. Isto é, todos sempre vivem - também os mortos - e constituem toda a Igreja, todos sempre pertencem a uma maioria na Igreja. Num Estado temos ontem, por exemplo, a administração Reagan, hoje a administração Clinton, e cada uma vez que vem depois desembaraça-se do que a anterior tinha feito e diz: começamos tudo de novo. Na Igreja, isso não existe. A Igreja vive precisamente da identidade de todas as gerações, da identidade que transcende o tempo, e a sua verdadeira maioria é constituída pelos santos. Cada geração procura tomar o lugar entre os santos e dá a sua contribuição. Mas só pode fazê-lo ao aceitar essa grande continuidade e ao familiarizar-se com ela."

Fonte: O Sal da Terra, Joseph Ratzinger - página 149-151
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