quinta-feira, 12 de abril de 2012

Pedras, Peixes, Sal, Terra e Terço

“Digo-vos: se estes se calarem, clamarão as pedras!” (Lc 19,40)

Ao começar o texto, a primeira coisa que me veio à mente foi a passagem onde Jesus responde aos fariseus que reclamavam do louvor e da alegria que seus discípulos demonstravam pelas ruas. Como relacioná-la à vigília realizada nesta última terça (10/04) em Belo Horizonte-MG a favor da vida?

Como os discípulos enfrentaram resistência, também enfrentamos alguma – bem pouca, aliás quase imperceptível, ao contrário de toda a gritaria que se vê em meios de comunicação. Em alguns casos pareceu ser mais indiferença do que resistência e até mesmo preguiça. Neste último me refiro sobretudo os católicos que deixaram de ir (excluo os que não puderam) por comodismo, por preguiça... Muitos são daqueles que postam, curtem, debatem, publicam na internet, mas na hora de “colocar a cara pra bater” se esconderam. Ainda mais um evento que foi divulgado pela internet (Facebook, listas de discussão, pelo próprio site da Arquidiocese) e pelo rádio. Por volta de 50 pessoas ou um pouco mais compareceram segundo contei. Não citarei o texto de Apocalipse (3,16) tão conhecido, antes citarei um trecho do Sermão de Santo Antônio aos Peixes, escrito pelo Padre Antônio Vieira

O efeito do sal é impedir a corrupção; mas quando a terra se vê tão corrupta como está a nossa, havendo tantos nela que têm ofício de sal, qual será, ou qual pode ser a causa desta corrupção?
Ou é porque o sal não salga, ou porque a terra se não deixa salgar.
Ou é porque o sal não salga, e os pregadores não pregam a verdadeira doutrina; ou porque a terra se não deixa salgar e os ouvintes, sendo verdadeira a doutrina que lhes dão, a não querem receber.Ou é porque o sal não salga, e os pregadores dizem uma cousa e fazem outra; ou porque a terra se não deixa salgar, e os ouvintes querem antes imitar o que eles fazem, que fazer o que dizem.
Ou é porque o sal não salga, e os pregadores se pregam a si e não a Cristo; ou porque a terra se não deixa salgar, e os ouvintes, em vez de servir a Cristo, servem a seus apetites.
Não é tudo isto verdade? Ainda mal!

Salto das pedras para o sal para os peixes. Se os cristãos não se manifestam, que as pedras gritem, se o sal está corrupto que se jogue fora, se ninguém nos escuta que falemos aos peixes como Santo Antônio.

Deixa as praças, vai-se às praias; deixa a terra, vai-se ao mar, e começa a dizer a altas vozes: Já que me não querem ouvir os homens, ouçam-me os peixes. Oh maravilhas do Altíssimo! Oh poderes do que criou o mar e a terra! Começam a ferver as ondas, começam a concorrer os peixes, os grandes, os maiores, os pequenos, e postos todos por sua ordem com as cabeças de fora da água, António pregava e eles ouviam.

E agora a terra. Será que é a terra que não se deixa salgar? São os ouvintes tão corrompidos que rejeitam a verdadeira doutrina? Será que são as pessoas que preferem servir a si mesmas, numa tentativa vão de se satisfazer do que a Cristo? Alguns dos detalhes que vi, não posso afirmar que todos perceberam o mesmo ou se houveram acontecimentos diferentes.

O primeiro ato que chamou a atenção de alguns ao meu redor fora uma dupla de lésbicas que pararam a nossa frente e começaram a se beijar, mas não durou muito. Talvez vendo que não tiveram ibope foram logo embora. Também a polícia fora embora depois de pouco tempo. Uma viatura chegou, permaneceu alguns minutos, viu do que se tratava o ajuntamento (se fosse uma manifestação com diversas bandeiras vermelhas como é comum na Praça Sete, teriam permanecido) e também foi embora.

Ao começar a manifestação, com uma pequena explanação sobre porque estes bebês merecem nascer, olhei para o lado e vi que algumas pessoas que passavam paravam e prestavam atenção no que estava sendo dito. Em especial, me chamou a atenção uma cadeirante. Será que com os rumos que a progressiva legalização do aborto vem alcançando, ela também seria abortada? Também vi reações positivas como algumas pessoas que faziam o sinal da cruz ou murmuravam as orações, além é claro, daquelas que saíam às janelas para assistir a manifestação.

Durante o percurso até a Basílica de Nossa Senhora da Boa Viagem, notei uns dois gatos pingados que gritaram a favor do aborto ao passar pelos católicos que rezavam o terço, alguns que liam o cartaz que ia à frente e balançavam a cabeça ou davam risinhos sarcásticos e duas mulheres que atravessaram a manifestação dizendo de forma áspera “com licença”. Será esta é a terra que não se deixa salgar? Ou é porque o sal não salga?

Autora: Fernanda Fernandes (Belo Horizonte-MG) - Texto carinhosamente escrito para divulgação no Dominus Iesus
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